domingo, 17 de setembro de 2017

Os dois Brasis


A desigualdade brasileira: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país, aponta o escritor, que lembra que em oposição a estes indicadores a economia brasileira é a sétima do planeta, apesar do país permanecer em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos.

Os dois Brasis

Escritor Luiz Ruffato causou grande estardalhaço ao focar no que o Brasil tem de pior em sua apresentação na Feira do Livro de Frankfurt de 2013, evento que se propunha a promover o país.


Os dois BrasisO mineiro Luiz Ruffato não poupou críticas ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt (Reprodução/DWL.Frey)

Na semana passada encerrou-se a Feira de Livros de Frankfurt, maior evento mundial do mercado editorial e ponto de encontro para negócios relacionados às editoras de todos os continentes.

Como o Brasil foi o país homenageado em 2013, o que tinha ocorrido antes somente em 1994, tivemos o direito de discursar no evento inaugural, cabendo a tarefa, entre os 70 escritores brasileiros convidados, ao mineiro Luiz Ruffato. Estando presentes autoridades alemães e brasileiras, aí incluídos o vice-presidente da república e a ministra da cultura, houve um grande estardalhaço com o teor da apresentação.

Normalmente, seria de se esperar que um brasileiro em evento que se propõe a promover o Brasil, falasse bem do país, pois poucos no exterior acreditam que, em termos de cultura, haja qualquer coisa no Brasil além de samba e futebol, para não descermos ao nível mais baixo dos atributos físicos das mulatas.

Ruffato inicia definindo o Brasil como um país dominado monetariamente pelo capitalismo selvagem, em todos os seus significados. Também expõe dados sociais e os compara com indicadores globais, conforme a seguir:

1.    A desigualdade brasileira: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país, aponta o escritor, que lembra que em oposição a estes indicadores a economia brasileira é a sétima do planeta, apesar do país permanecer em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos.

2.    O índice de assassinatos no país: Ruffato destaca a alta taxa de homicídios no Brasil, que chega a de 20 assassinatos por 100 mil habitantes, o que equivale a aproximadamente 37 mil pessoas mortas por ano, considerando a população brasileira – número três vezes maior do que a média mundial. A explicação poderia ter raízes históricas, e o escritor invoca a constituição do povo brasileiro, marcada pelo extermínio dos povos indígenas: eram 4 milhões de indígenas na época do descobrimento do Brasil, e hoje restam cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades.

3.    Violência contra mulheres e crianças: o autor ressalta que o Brasil ocupa o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas, ao passo que em 2012 foram registradas mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. Ruffato lembra ainda que estes números são sempre subestimados, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, por diversas questões, muitas vezes familiares.

4.    O problema do analfabetismo: ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo, já que 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais, ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

5.    Mercado editorial brasileiro: este mercado movimenta anualmente em torno de U$S 2,2 bilhões, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas às bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Todavia, o escritor não deixa de relatar pontos positivos: a maior vitória de sua geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos,  trata-se do período mais extenso de vigência do Estado Democrático de Direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. A implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou até mesmo os de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas, também seriam pontos positivos a serem destacados.

Por fim, sem esquecer dos problemas estruturais diários, o escritor lembra que continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

O sociólogo francês Jacques Lambert publicou na década de 50 o clássico ensaio Os dois Brasis, onde denunciava a dicotomia da pobreza convivendo com alguma modernidade e avanço. Em outro momento, o economista Edmar Bacha cunhou a expressão Belíndia, para denominar o Brasil como um misto de Bélgica desenvolvida com a outrora Índia muito pobre, antes de entrar para os BRICs. Deveria Luiz Ruffato ter mostrado também um Brasil melhor?

Paulo Gurgel Valente

Fonte Opinião e Política

18 out, 2013

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Quinzena do Negro na USP 1977

Ato Celebração (9) (1024x768)

Nós que fundamos o Movimento Negro Unificado (inicialmente Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial) em 1978, na época tínhamos contatos com os movimentos de libertação que ocorriam na África, e com os movimentos negros da Diáspora. Tínhamos, mas no dia sete de julho comemoramos nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo 39 anos de MNU. Surgido em 1978 quando ocorreria as festividades dos 90 anos da Abolição da Escravatura, nós então jovens protestávamos pela morte de um jovem dentro de uma delegacia, e prela proibição de atletas negros frequentarem as áreas sociais de um clube.

Estarmos na Universidade Eduardo

Plena Ditadura, saímos as ruas para protestar, marco simbólico da retomada de protestos populares, e dos movimentos negros unidos em uma Frente, que se espalhou Brasil afora. Tenho orgulho de ter participado, mas não estou feliz. Em 1978 apontávamos uma morte do Robson, logo depois seguida do Nilton por policiais militares. No primeiro número do Cadernos Negros, havia uma poesia profética: “mataram um negro depois outro...” Os jornais mostram as estatísticas do primeiro semestre de 2017, a Polícia Militar em São Paulo matou 459 pessoas. Vivemos numa guerra, do Estado contra a população pobre, preta e periférica.

Parece que não temos memória, cada negro inicia uma nova luta por sua sobrevivência. Ontem foi uma celebração, o coletivo angolano Muximas na Diáspora, e os movimentos negros, e defensores dos direitos civis, tivemos oportunidade de confraternizar com um dos presos políticos angolanos. Pedimos que dessem visibilidade internacional, ao pedido de Liberdade para Rafael Braga, e até hoje perguntamos: “Cadê o Amarildo? ”

Quinzena do Negro

Orgulhoso, mas não feliz, lembrei da pioneira Quinzena do Negro na USP, ocorrida em 22 de maio até 8 de junho de 1977. Organizador Eduardo de Oliveira e Oliveira, Socióloga Beatriz do Nascimento, professor Clóvis Moura, professora Joana Elbein dos Santos. Foi um sucesso e marcou o questionamento do sentido da abolição e as influências nos descendentes dessa integração incompleta. Tínhamos mais contatos, em 1982 ocorreu o 3º. Congresso de Cultura Negra das Américas (IPEAFRO Abdias do Nascimento).

Eduardo

Esse marco histórico na USP que completou 40 anos a Quinzena do Negro na USP, alguém lembrou, comemorou? Alguma homenagem para esses ícones de nossa história, Eduardo de Oliveira Oliveira, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura?

Negando sua origem Beatriz

Durante duas semanas especialistas nos diversos campos das ciências sociais discutiram, na Universidade de São Paulo em 1977, os destinos dos descendentes dos africanos trazidos ao Brasil Colônia como escravos. Foi a Quinzena do Negro, iniciada no dia 22 de maio, e que se estendeu até o dia 8 de junho, sob o patrocínio do Departamento de Artes e Ciência s Humanas da Secretaria de Cultura, Ciências e Tecnologia do Estado de São Paulo.

Não pretende ser Eduardo

O organizador, o sociólogo negro Eduardo de Oliveira e Oliveira, dizia sobre a proposta: “ A Quinzena seria um prenúncio daquilo que eu e um grupo de estudiosos estamos pensando: um trabalho mais amplo, de natureza nacional, possivelmente com autoridades internacionais, para o ano que vem, quando se comemora o 90º. Aniversário da Abolição da Escravatura. No encontro a pergunta básica será: que destino devem tomar os descendentes de escravos? ”

Reconhecimento Beatriz

Quando completam-se 40 anos de uma conquista histórica, e com a aprovação da Cotas na USP, uma pergunta simples: Não vale uma comemoração?

Fotos Hugo Zambukaki

Fotogramas do vídeo Ori

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Luaty Beirão Centro de Estudos Africanos USP

Luaty Cel (16) (1024x576)

Ontem dia 3/8 no auditório da Centro de Estudos Africanos (CEA) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP, tivemos uma grande alegria, encontrar Luaty Beirão, rapper e escritor angolano. Um dos jovens ativistas presos em 2015 os chamados 15+2, por estarem lendo um livro foram acusados de estarem promovendo um golpe de estado contra o governo do presidente angolano José Eduardo do MPLA, eleito interruptamente há quase quarenta anos.


Luaty CEA (22) (1024x768)

Luaty tornou-se o símbolo da campanha internacional #LiberdadeJá, por sua exposição como rapper e dupla cidadania, filho de um dos principais quadros do MPLA. E principalmente por seu extremo amor por Angola e fortes convicções. Entrou em greve de fome, o regime ditatorial de Angola transformou-o em um mártir. Ele cobrava simplesmente seus direitos de cidadão.

Luaty na cama

Sua imagem deitado na cama, aparência de moribundo, correu o mundo misto de cristo e che. Manifestações ocorreram, na Inglaterra, Alemanha, França, Portugal, pedindo a liberdade dos presos políticos angolanos.

Luaty (1024x576)

Tantas que, até no Brasil... Da Bahia veio o grito do professor Ney D´Dan, em Brasilia a professoras Neide Samico foi organizado um movimento de indignação nacional Estimulado pela ação de um grupo angolano de São Paulo Muximas na Diápora, os movimentos negros e da sociedade civil se manifestaram: #LiberdadeJá.

Luaty CEA (18) (1024x727)Luaty CEA (62) (1024x780)

Muito nos guiou o poema de Solano Trindade, e um artigo da professora Susan de Oliveira sobre os Revús. Logo um documentário das cineastas Eliza Capai e Natália Viana nos reafirmava nossos rumos.Luaty Cel (64) (1024x576)

Muito se falou de Luaty, gostaria de falar o isolamento do Brasil perante o mundo, sendo mais específico dos movimentos negros no Brasil. Nós que fundamos o Movimento Negro Unificado (inicialmente Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial) em 1978, na época tínhamos contatos com os movimentos de libertação que ocorriam na África, e com os movimentos negros da Diáspora. Tínhamos, mas no dia sete de julho comemoramos nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo 39 anos de MNU. Surgido em 1978 quando ocorreria as festividades dos 90 anos da Abolição da Escravatura, nós então jovens protestávamos pela morte de um jovem dentro de uma delegacia, e prela proibição de atletas negros frequentarem as áreas sociais de um clube.

Quinzena do Negro

Plena Ditadura, saímos as ruas para protestar, marco simbólico da retomada de protestos populares, e dos movimentos negros unidos em uma Frente, que se espalhou Brasil afora. Tenho orgulho de ter participado, mas não estou feliz. Em 1978 apontávamos uma morte do Robson, logo depois seguida do Nilton por policiais militares. No primeiro número do Cadernos Negros, havia uma poesia profética: “mataram um negro depois outro...” Os jornais mostram as estatísticas do primeiro semestre de 2017, a Polícia Militar em São Paulo matou 459 pessoas. Vivemos numa guerra, do Estado contra a população pobre, preta e periférica.


Edaurado 1Parece que não temos memória, cada negro inicia uma nova luta por sua sobrevivência. Ontem foi uma celebração, o coletivo angolano Muximas na Diáspora, e os movimentos negros, e defensores dos direitos civis, tivemos oportunidade de confraternizar com um dos presos políticos angolanos. Pedimos que dessem visibilidade internacional, ao pedido de Liberdade para Rafael Braga, e até hoje perguntamos: “Cadê o Amarildo? ”

Eduardo

Pensávamos que não seria possível esse encontro, Luaty Beirão veio para a FLIP ocorrida em Paraty, foi no Rio na Favela do Vidigal. São Paulo esquecida, sem contatos internacionais, isolados no mundo. Para satisfação o Centro de Estudos Africanos da USP (CEA) através dos esforços da sua Diretora professora Tania Macedo, nos deu essa alegria de celebrar.

Hamilton

Orgulhoso, mas não feliz, lembrei da pioneira Quinzena do Negro na USP, ocorrida em 22 de maio até 8 de junho de 1977. Organizador Eduardo de Oliveira e Oliveira, Socióloga Beatriz do Nascimento, professor Clóvis Moura, professora Joana Elbein dos Santos. Foi um sucesso e marcou o questionamento do sentido da abolição e as influências nos descendentes dessa integração incompleta. Tínhamos mais contatos, em 1982 ocorreu o 3º. Congresso de Cultura Negra das Américas (IPEAFRO Abdias do Nascimento).


Congresso Abdias


Esse marco histórico na USP que completou 40 anos a Quinzena do Negro na USP, alguém lembrou, comemorou? Alguma homenagem para esses ícones de nossa história, Eduardo de Oliveira Oliveira, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura?

Esse contato com Luaty Beirão promovido pelo Centro de Estudos Africanos e sua diretora Tania Macedo, nos traga o brilho de nossa história e os laços ocorridos transformem-se em pontes.


E se perguntarem temos orgulho, o Coletivo Catorze de Maio se faz presente.


Fontes citadas:

O rap e o ativismo pelos direitos humanos em Angola, por Susan de Oliveira

http://www.pordentrodaafrica.com/noticias/o-rap-e-o-ativismo-pelos-direitos-humanos-em-angola-por-susan-de-oliveira

“É Proibido falar em Angola” Agência Pública, vídeo de Eliza Capai e Natalia Viana.

https://www.voaportugues.com/a/documentario-e-proibido-falar-em-angola-bloco-1/3067095.html

Fotogramas do filme Ori no documentário Ôrí, lançado em 1989, pela cineasta e socióloga Raquel Gerbe 1989

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Pisaram nossas Bandeiras, NÃO HOUVE SILÊNCIO!

Irmã Neuza Maria Pereira Lima, deu orgulho ver esse vídeo, ver, rever e ver de novo.

Pisoteamento Bandeira 2
Agressão física era os provocadores esperavam, uma mulher branca idosa agredida por negros! Ela não estava sozinha, na frente ela e um senhor também idoso. Ela arrogante pisa as bandeiras, ele destemido passa atrás do orador Wilson entre
Adriana e José Adão, atrás vem mulheres jovens, e por último um homem maduro, bem forte que ao passar atrás do professor Wilson tem na cara de “alamão” (sou filho de migrantes) sorriso escancarado de escárnio, antes de entrarem na “casa grande” do Teatro Municipal.Pisoteamento Bandeira


Pisaram nossas bandeiras, destemidos senhores aristocratas como devem ter sido seus ancestrais, passaram no meio das nossas lideranças no Ato. Procuravam uma reação física, uma mera agressão, um tapa, um encostar de mão, ou uma jogada e rolada de escada.
Assim haveria justificativas para chamarem a polícia militar, para encerrarem, prenderem os manifestantes.

Pisoteamento Bandeira 3

Nada disso ocorreu. E como me orgulho! E já canta Gil “a felicidade do negro, é uma felicidade guerreira, Zumbi, comandante guerreiro, Ogunhê, ferreiro-mor capitão, Da capitania da minha cabeça”.


Na avenida Paulista ocorreu há pouco o mesmo, numa marcha fascista contra imigrantes, os jovens palestinos do Al Jahiah, foram provocados, depois espancados, e PRESOS pela Polícia Militar.
Pisaram nas bandeiras dos coletivos negros presentes no Ato de Celebração em luta dos 39 anos do MNU. Passaram no meio de nossas lideranças, no alto das escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, não houve um gesto de agressão física. Eu me orgulho, NÃO HOUVE SILÊNCIO!

Pisoteamento Bandeira 4

Pisaram em nossas bandeiras, em frente ao símbolo da aristocracia burguesa paulistana, a “casa grande do Teatro Municipal de São Paulo”. Pisaram nossas bandeiras, os descendentes dos escravocratas barões do café, descendentes dos bandeirantes, que exterminavam e índios e os escravizavam, dos bandeirantes que arrasaram com a Livre República de Palmares. Descendentes dos “paulistas” que invadiram Angola e retomaram para Portugal da mão dos holandeses, para garantir o porto escravista português.


Pisaram, mas não foi na senzala. Em frente à casa grande do Teatro Municipal de São Paulo, estavam guerreiras, guerreiros e crianças seu filhos de orgulho quilombola. Oposto de casa grande é quilombo, não senzala.
Vendo o vídeo, reações de gritos desde o início, pouco à pouco gritos fortes, a reação do orador professor Wilson, usa uma arma: sua voz como fio de navalha, cortando a mente. Protestando, cobrando, comparando o Teatro Municipal ao símbolo da Casa Grande.
Rápidos vários guerreiros correm, sobem e protestam, usando a arma de nossas inteligências e força, nossa voz. Quando os provocadores entram no Teatro Municipal de São Paulo, buscando proteção e apoio, nós seguimos confiantes continuando a cobrança secular. Na frente
Durval Arantes, e outros companheiros: Dá para ouvir claramente: “Cala a boca”; “Racistas”! Os senhores donos dos nossos destinos como nação calam-se.
Subimos e protestamos, liderados pela voz forte do professor Wilson, os guerreiros a frente, professores, escritores usaram a arma da razão: a palavra! Eu com meus 70 anos, na retaguarda, trôpego filmando (péssimas imagens). Velho juruna digital, ficará o registro.
Discordei de irmos conversar com o secretário da cultura, apoiei a invasão para cobrar dos racistas, sem um ato de agressão física. Palavras fortes e determinadas, cobrando nosso espaço na sociedade brasileira.
Como ocorreu há pouco num ato no Al Janiah promovida pelo imigrante congolês
Christo Kamanda, uma mulher provocava, impedindo os africanos na mesa de falarem, e num ato como esse dizia: “No Brasil não existe discriminação e racismo”! Os coletivos negros garantiram a palavra e a continuidade do ato dos africanos. O “Coletivo Catorze de Maio” também presente, protestou e gravou.
Não agredimos racistas, usamos a voz forte da cobrança, mas não abraçamos nossos agressores.
Por menos o catador Ricardo Teixeira Santos, em Pinheiros recebeu um tiro no peito desferido pela Polícia Militar. Como em 1978 na morte de Nilton num ponto de ônibus na Lapa, “um tiro acidental, liquidou a questão”...

Wilson


Fernando Samuel Souza Maria sentindo-se com raiva com Gilda Vendramin Além Paraíba Minas Gerais. Disse há dias sobre essa agressão racista:
“Hoje estão pisando nossas bandeiras, nossa história. Se não reagirmos, amanhã vão pisar os nossos corpos inertes. Está na hora de unificação de nossos coletivos. ”

O vídeo do dia 7 de julho de 2017.

https://www.youtube.com/watch?v=-lw1hPnVcog


Orgulho e honra aos que se foram, resistentes, e jovens dessa luta secular. Hugo Ferreira Zambukaki

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Post Origem do MNU depoimento de militantes

A ORIGEM DO MNU - MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO

Quando os comentários são mais esclarecedores que o post:

“Éramos eu, ..., ..., os .... e muito mais gente”

Reunião no Cecan

Uma postagem no Facebook  baseado no Acervo Agência Globo, provocou a resposta de dois militantes fundadores do Movimento Negro Unificado, por sua importância publicamos as respostas ao post.

Por várias razões e respeito à opinião alheia, omitimos, o autor do depoimento e a autoria do artigo.

Masp Cotas (57)

Milton Barbosa: Em 18 de junho de 1978 representantes de vários grupos se reuniram, em resposta a discriminação racial sofrida por quatro garotos do time infantil de voleibol do Clube de Regatas Tietê e a prisão, tortura e morte de Robson Silveira da Luz, trabalhador, pai de família, acusado de roubar frutas numa feira, sendo torturado no 44 Distrito Policial de Guaianases, vindo a falecer em consequência às torturas.

Representantes de atletas e artistas negros, entidades do movimento negro: Centro de Cultura e Arte Negra – CECAN, Grupo Afro-Latino América, Associação Cultural Brasil Jovem, Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas – IBEA e Câmara de Comércio Afro-Brasileiro, representada pelo filho do Deputado Adalberto Camargo, decidiram pela criação de um Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial.

O lançamento público aconteceu numa manifestação no dia 7 de julho, do mesmo ano, nas escadarias do Teatro Municipal da Cidade de São Paulo, reunindo duas mil pessoas, segundo o jornal "Folha de São Paulo", em plena na Ditadura Militar.

Com a criação do Movimento e seu lançamento público, mudamos a forma de enfrentar o racismo e a discriminação racial no país.

Já no dia 7 de julho, participaram entidades do estado do Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa das Culturas Negras – IPCN, Centro de Estudos Brasil África – CEBA, Escola de Samba Quilombos, Renascença Clube, Núcleo Negro Socialista, Olorum Baba Min, Sociedade de Intercâmbio Brasil África – SINBA.

Cinco entidades da Bahia nos enviaram moções de apoio à manifestação.

Prisioneiros da Casa de Detenção do Carandiru, enviaram um documento se integrando ao movimento, denunciando as condições desumanas em que viviam os presos e o racismo do sistema judiciário e do sistema prisional – Centro de Luta Netos de Zumbi.

Participaram do Ato, também, Lélia Gonzales e o professor Abdias do Nascimento.

Masp Cotas (39)

Hugo Ferreira Zambukaki:  Parabéns Milton Barbosa, ótimo depoimento de quem viveu e construiu esse momento em 1978. Muito se fala sobre esse momento histórico, alguns dizendo "eu e os outros", ver uma narrativa concisa como a sua salientando o coletivo acima da individualidade, dá orgulho.

Sou testemunha de seu comportamento exemplar, em pleno "Ato Por que a USP Não Tem Cotas?", no Vão Livre do MASP, no dia 3 de julho de 2017, na hora dos coletivos falarem chamaram o Movimento Negro Unificado Brasil- MNU, presentes o José Adão Oliveira e você. Os dois querendo que o outro tomasse a palavra, o indicado por vocês foi o Adão, exemplos como esses de humildade e reconhecimento dos companheiros, é raro. Logo depois do Adão falar, exigiram sua presença por esse seu comportamento de décadas. O coletivo antes do indivíduo.

Masp Cotas (50)

No seu depoimento você não narra, por essa ideia da coletividade antes dos indivíduos. O MNUCDR (MNU) foi uma frente de várias entidades e coletivos, mas nasceu de intensas, imensas discussões numa entidade o CECAN no Bixiga. Falo e sei que terei depoimentos de inúmeras companheiras e companheiros, que lá estiveram e viveram essas reuniões.

Mesmo antes do CECAN, eu ouvia essa proposta de dois companheiros, o que seria esse movimento. Ontem conversando com o Adão, ele definia todo esse processo como um enorme elefante apalpado por cegos, cada um vê e relata como segura a orelha, a perna...

Milton Barbosa, e Rafael Pinto na minha visão de cego segurando elefante, foram os iniciadores desse processo. Na época discutia-se cultura, atos políticos não. Ouvi dos dois companheiros, essas ideias muito antes inclusive da segunda fase CECAN, tenho na memória, com carinho as reuniões na casa da sua mãe (creio que em 1975), onde eu ouvia de vocês, e sonhávamos na construção de uma ação política.

Masp Cotas (45)

Falo isso como mero coadjuvante, junto de inúmeros companheiros companheiras que se juntaram aos esforços de vocês. Meus respeitos pelo pioneirismo, trabalho e construção.

Outros tantos nomes se uniram, somando experiências, significativa e fundamental importância. Mas honra e orgulho, ao Milton e Rafael, iniciadores intelectuais, estimuladores e construtores do processo de reorganização do movimento negro em plena Ditadura.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Um pouco

Tenho um pouco de moleza

no corpo, que me faz

bocejar, enquanto coço,

o peito do pé, com o pé

vendo a vida passar.


Tenho um pouco de medo,

que me faz vacilar

como menino, antes da hora

da briga enfeiada.


Tenho um pouco,

só até na hora.

Depois tenho um

tanto de muito,

me envolvendo, crescendo

correndo prá cima,

pulando na briga.


É o homem segurando

o menino,fazendo-o

crescer, ensinando

que o medo só

lhe foi ensinado

por terem medo

do homem que

existia no menino.


Tenho pouco de moleza.

Tenho um pouco de medo.

Tenho um pouco de homem e menino.


Hugo Ferreira Zambukaki

quinta-feira, 15 de junho de 2017

“Coloridos e Colorizadores”

“Aqui corre sangue, e é calunga!”

“por isso nos ensinam a forma

de pensar, comer, agir/ de dividir colorindo”

Ferreira e Huguinho

Na maioria das discussões de internet e faceibuques, não me meto. Dá muito trabalho seguir posts gigantescos, e comentários maiores ainda. Os famosos textões, com pouco conteúdo e nenhuma lógica...

Creio se você tem um ponto diferente, escreva um artigo, mas sem jargões acadêmicos para o outro entender que você está discordando e ofendendo. Sou de uma geração, se você não morresse, não fosse parar na FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor) no Tatuapé, ou no Carandiru depois, bom seria ter uma profissão de nível superior. Ah a FEBEM é a versão atual da Fundação Casa e o “Carandirú” o Cadeião de Pinheiros.

Se formado (época da ditadura) cuidado para não cair no DEOPS. Também escapei da “academia”, na época anos 70, mestrados, especialização, doutorados, pós-doutorados, MBA só para quem seguia carreira acadêmica. Ser profissional valia mais a “prática, que a gramática” e seus jargões, salário era o mesmo.

Nos anos cinquenta ainda se encontrava moedas com Brasil escrito com Z, muita gente ainda escrevia “Brazil”, é que as regras da ortografia e conceitos mudam de tempos em tempos. Não sei se para melhor.

Meu pai cursou em 1929 a Escola Militar do Realengo (RJ) que formava oficiais para o Exército, onde também Luís Carlos Prestes se formara e foi professor. Esses oficiais vindos das classes mais pobres, viam a educação como uma forma libertadora dos jugos das elites oligárquicas.

Éramos em 5 irmãos, 3 mulheres e 2 homens. Á todos a prioridade de minha mãe e pai foi a educação para os filhos. Na década de 40 os colégios internos eram o melhor destino para uma educação de qualidade. Colégio militar para os filhos, e colégio de freiras para as filhas. Foi o caminho dos meus irmãos, não o meu.

Carteira de motorista Ferreira

Meu pai nasceu em 1896 no norte de Minas Gerais, saiu de casa aos 13 anos e nunca mais voltou. Entrou no Exército como soldado raso, foi revolucionário no movimento tenentista, fez carreira no Exército como oficial. Tinha sua perna esquerda metralhada, no peito uma bala não retirada (muito próxima do coração), risco de baioneta no braço, e na mão faltava uma falange.

“Pardo” o filho mais escuro, discutiu com seu pai e nunca mais voltou, seu pai era loiro, em Minas Gerais as relações eram diferentes do Nordeste, havia mobilidade social nos campos de mineração, e pobres casavam com pobres.

Minha mãe carioca, de uma família moura mais antiga que Portugal, de militares, advogados, juízes e políticos. Tiveram seu auge no Império, com a República perderam seus bens, ou ficaram com os mais espertos. Meu avô materno morreu cedo, minha avó casou pela segunda vez. Minha mãe com o segundo casamento de avó foi morar com os parentes. O Rio de Janeiro, entrelaçou essas histórias.

Sou filho temporão, diferença quase vinte anos do meu irmão mais velho, treze de minha irmã mais nova. Nasci em 1946 meu pai já reformado do Exército, estava com 50 anos, minha mãe com 36 anos na época idade de avós. De São Paulo fomos morar em São Vicente, minha mãe tinha problemas de pressão alta.

Meu irmão formou-se advogado em 1955, na Faculdade de Direito de Niterói no Rio de Janeiro, colega de turma um filho de baiano nascido em São Vicente, Esmeraldo Tarquínio Filho, na época poucas faculdades, filhos de famílias pobres formavam-se em Niterói. Autodidatas trabalhavam como provisionados (advogados sem formação acadêmica).

A casa de meus pais em São Vicente, era um quilombo cheio de sol, voltado para a integração na sociedade. Uns “moreninhos” como Sílvio Caldas, Esmeraldo alegravam com suas vozes e violão. Na época dos anos 50 éramos “delicadamente” chamados de uma “família de cor”. Na ofensa família de pretos! Nunca descobri que era negro, preto, ou “de cor”. Sempre fui, orgulho de minha origem, história e lutas.

Hugo OAB 1977

Há 40 anos - 1.977 / No olho do furacão.
"Geração anos 70:
"Somo crioulo doido e somo bem legal.
Temos cabelo duro é só no black power…sou brasileiro..." https://www.youtube.com/watch?v=U-vPiPvnsuc

Camaleão, espelho distorcido das imagens, de quem se enxerga. Formei-me em 1975 advogado, tive problemas com a foto oficial de minha carteira, em função de meu cabelo “Black Power” da época.

Não tenho culpa da ignorância e racismo de ninguém.

Independentemente de cor e tonalidade de pele éramos calungas (como os vicentinos se tratam). Companheiros de luta pela inclusão social na sociedade, diferentes de origem, mas de um mesmo navio negreiro chamado Brasil.

Calunga ou Kalunga é o nome atribuído a descendentes de escravos fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil central que formaram comunidades autossuficientes

Gentílico: Calunga e/ou Vicentino, são pessoas nascidas na cidade de São Vicente do Estado de São Paulo.

Hugo Ferreira Zambukaki