quarta-feira, 22 de junho de 2016

Um filme escondido da Ditadura por 25 anos

Durante a Ditadura Militar (1964 à 1985) houve sérias restrições onde tudo era proibido e censurado. A violência e agressão eram destinada aos que discordavam do regime totalitário, era a ideologia do inimigo interno, baseada na “Guerra Fria” onde o Estados Unidos em sua disputa com a União Soviética combatia e exportava sua ideologia aos países da América Latina.

Desde estimular, financiar políticos e militares para a derrubada do governo de João Goulart, até o envio de uma frota (Operação Brother Sam) com marines norte-americanos para apoio do golpe contra o governo constituído. Como não houve reação contra o golpe a frota norte-americana voltou ao Caribe.

Operação-Brother-Sam-Destroyers-Porta-Avioes

A operação consistiu no deslocamento da frota da Marinha norte-americana estacionada na região do Caribe para o litoral brasileiro. O apoio logístico em favor dos golpistas fora solicitado pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, com quem as forças insurgentes já mantinham contatos visando o suporte norte-americano à derrubada do governo Jango.

Surgiram das manifestações populares nos finais dos anos 60 grupos de resistência, alguns através da cultura para “conscientização das massas”, outros armados tentando com ações de guerrilha diminuir o poder dos militares golpistas. Líderes estudantes, sindicais, e políticos de esquerda foram torturados, mortos, tiveram que fugir do país e muitos os seus corpos estão desaparecidos até hoje.

Brasil Ame-o

Era a época das bandeiras verde-amarelas dos adesivos nos carros “Brasil ame-o, ou deixe-o”

Filmes feitos na época mostram bem como eram a forma de se opor ao regime.

Queremos citar um filme feito em 1968 e 69 "Manhã Cinzenta" por Olney Alberto São Paulo A proposta inicial de Manhã Cinzenta era que viesse a compor um projeto de um filme com três histórias. No entanto, com a apreensão de Manhã Cinzenta e a censura, o projeto foi abandonado por Olney São Paulo, ficando apenas um filme de caráter independente que, embora ficasse inédito no Brasil, ganhou muita repercussão em outros países. Exemplo desse reconhecimento e da valorização foi a premiação recebida na Alemanha, bem como as participações em festivais de Cannes, em 1970; Cracóvia, na Polônia; Viña del Mar, no Chile; Pesaro, na Itália, e em Londres.

Olney-Sao-Paulo2

Olney São Paulo

Na manhã do dia 8 de outubro de 1969, ocorre o primeiro sequestro de um avião brasileiro, por membros da organização MR-8. O avião é desviado de Cuba. Um dos sequestradores é membro da diretoria da Federação Carioca de Cineclubistas. “Manhã Cinzenta” é exibido a bordo. Olney é vinculado pelas autoridades brasileiras ao sequestro. É detido e levado para local ignorado, ficando incomunicável por doze dias. Liberado, em 5 de dezembro é internado, com suspeita de pneumonia dupla. Em 25 de dezembro, muito debilitado psíquica e fisicamente, passa alguns dias com a família e é internado novamente.

Os negativos e cópias de "Manhã Cinzenta" são confiscados. Mas uma das cópias do filme é salva por Cosme Alves Neto, então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e ficou por vinte cinco anos escondida na Cinemateca do MAM.

Olney São Paulo morreu cedo,  com a saúde debilitada vítima de tortura em 1978, aos 41 anos.

Assista Manhã Cinzenta  Ano: 1969 - Duração: 00:22:00
Diretor: Olney Alberto São Paulo

Um golpe de estado num país imaginário da América Latina. O poder. A repressão. O filme que levou seu realizador aos porões da ditadura.

Fontes: Olney São Paulo http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/olney-sao-paulo/

Olney São Paulo https://pt.wikipedia.org/wiki/Olney_S%C3%A3o_Paulo#Pris.C3.A3o_e_censura

Olney São Paulo http://www.cinecachoeira.com.br/2011/06/olney-sao-paulo/

Operação Brother Sam http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/operacao-brother-sam-golpe-de-64-teve-apoio-dos-eua.htm

segunda-feira, 11 de abril de 2016

De volta à Vila Buarque

Sou da geração que gostava de se denominar de “68” em virtude das grandes manifestações mundiais que iniciaram-se na França e incendiaram a juventude e o mundo.

Foto reprodução Wikipedia

Naqueles idos do século passado (bom lembrar que o tempo passou), vivíamos numa área geográfica entre o Bar do Zé na Maria Antônia, a Quitanda e o Bar Redondo em frente ao Teatro de Arena. E nesse entremeio as Faculdades de Economia, Filosofia e Letras e a Sociologia e Política da USP, como oposição o Mackenzie (na época fora o quartel do CCC –Comando de Caça aos Comunistas) na “famosa batalha da Maria Antônia” em São Paulo.
Um forte clima de batalha ideológica existente no Brasil, mostrava o seu enfrentamento no meio estudantil, uma divisão entre Brasis... Hoje as manifestações são na Avenida Paulista, e o mesmo clima de intolerância, volta a existir. Armam-se locais diversos para os prós e contras do Impeachment à ser votado no Planalto. Bandeiras Vermelhas e Verde Amarelo, e nós que nas Diretas usamos o Amarelo como bandeira e o vermelho flutuava tranquilo...
Morava na rua Caio Prado, numa república, a Cidade Universitária na época usada como forma de dissociar os estudantes do centro da cidade que era no hoje chamado centro histórico, ainda erguia e com enorme relutância dos estudantes para ocuparem, um local longe do centro. As únicas faculdades que conseguiram o seu direito de permanecer foram a de Direito do Largo São Francisco e a Faculdade de Sociologia e Política.


Flyer da Casa Elefante


Domingo estive na rua Cesário Mota, 277 na Casa Elefante misto de bar, espaço artístico, apresentações, enfim tudo o que a Vila Buarque representou e representa. Um dos autores da proposta da Casa Elefante, Pedro Clash nos recebeu e deu um lindo flyer com imagem nostálgica de um menino num cais olhando o mar num horizonte longínquo.
Pedro numa apresentação do Fotroca, contava de como essa série foi feita na Inglaterra, outras fotos mostram o menino (seu sobrinho e afilhado) com uma banana mordida na mão. Pedro contava que a situação foi desenvolvendo-se entre o fotógrafo (ele) e o menino numa interação entre parentes e as imagens retratam esse momento mágico.


Foto do ensaio de Pedro Clash (Boy)


Você cria uma obra, e ela é recriada na mente dos que interagem. Em mim bateu forte e doído... Tenho uma filha no exterior que indignada com a situação no país, encontra como solução o aeroporto. Imaginei no sobrinho de Pedro na Inglaterra, o meu futuro neto (a) num cais vazio. Crio e imagino histórias e causos nas fotos do Pedro Clash, inexistentes mas reais na minha mente.
O que aparentemente é uma conversa do “Samba do Crioulo Doido” do Staniswlau Ponte Preta, contado o drama de autor de samba-enredo da época da ditadura, onde com muita informação você confunde e embaralha tudo, é um questionamento de uma época em que vivemos onde pede-se a volta da Ditadura, (Staniswlau poeta, dramaturgo intelectual morreu envenenado, coisas da época da ditadura). Hoje os interesses ocultos são tantos que você sente-se como num verso de Alceu Valença “um boi no meio da multidão”...

Voltar à Vila Buarque, perto da Biblioteca Monteiro Lobato, próximo à Faculdade de Sociologia e Política, entrar na Casa Elefante (misto de sarau, brechó e eventos) mostra como a vida era e é esfuziante na Vila Buarque. O criador cultural não é uma ilha, nem dá para ser um homem de sete instrumentos, há uma necessidade de compartilhamentos, saberes e conhecimentos. Compro livros da do Ricardo Bissera da “Editora Direto do Produtor”, e um cordel fotográfico do Sebá Neto produções independentes e artesanais, feliz da vida saio com uma sacola de plástico vermelha, com alegria e sem medo.

domingo, 10 de abril de 2016

Fotógrafos trabalhando!



Espera e tensão
Com a democratização das fotos digitais, o que era uma arte popularizou-se, câmeras tornaram cada vez menores e com mais recursos as “Power shots”. E cada um tornou um registrador de momentos, interessantes ou não. Com a internet e redes sociais um mostrar de intimidades corriqueiras que banalizam o ato de mostrar a realidade segundo sua visão.

Contato com a comunidade

Não falarei da importância da fotografia e dos vídeos, muitos já se falou. Minha geração pautava-se nas palavras de Glauber Rocha: “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão.”






Com os smartphones e com duas câmeras (frontal e traseira) os selfies e fotos posadas surgem a cada momento. A ponto de eu ouvir “pérolas de sábios” donos da verdade: ”fotografar todo mundo fotografa”, e um desmerecimento geral total e irrestrito pelo esforço do fotógrafo de plantão: “Você pensa que só você sabe fotografar?”.


Fotografia é uma arte e ciência cada vez mais avançando em tecnologia e cada vez mais você tem que ter conhecimento, e hoje em dia uma educação continuada, e sempre há quem sabe mais que você e ou tem um conhecimento novo.






Conferindo as fotos Sergio Cruz




Como trocar informações, compartilhar sonhos e projetos? Encontrei o pessoal do Fotroca através do Pedro Clash, na 41a. reunião no Palacete Carmelitas e tenho encontrado uma surpresa atrás da outra, um grupo coeso mostrando seus trabalhos contando suas formas de fazer e assim estimulando novas produções e parcerias. E mais acolhendo e celebrando com quem chega.


Os papos depois da reunião (que sempre são os melhores momentos) levaram-nos a conhecer o trabalho do grupo no registro da Festa do Rosário na Penha de França em São Paulo no dia 03/04/16. Trabalho de mais dez meses com mais de 3000 fotos de vários autores. Tamanho esforço que conversando com Carol Conti uma das idealizadoras do projeto, ao saber que esse trabalho era para um artigo, Jô Muniz exclamou:”Tem registro para um livro excepcional!”
Ricardo Biserra atento aos acontecimentos



Numa época de banalização e exposição de imagens o Fotroca surge como biscoito fino, registrando uma luta de resistência da cultura popular através da comunidade da Igreja do Rosário. A força do: “Viva o Povo Brasileiro” que João Ubaldo no seu romance, transparece nessa continuidade de luta. A esses fotógrafos o meu maior respeito por sua luta e profissionalismo.




Daniela Lucheta um olhar digital







Trabalho de equipe 

domingo, 27 de março de 2016

Saudades de mim mesmo... Um homem azul.

Dentro de mim a essência de ancestrais, características físicas, morais e ideais, que mesmo sem entender ou compreender racionalmente, regem minha vida.
Reproduzidos na minha família, sem explicação ou pedido de licença, elas se manifestam. Físicas e morais, características não ensinadas por normas ou preceitos, mas por exemplos, tornados modelos de tsunamis. No DNA dos filhos a herança da liberdade.
Por parte de mãe e pai, trago o sangue dos “Imazighan” (designação significando: “os homens livres” um dos povos mais antigos da África, povo berbere chamados pejorativamente pelos árabes de “tuaregues” (em árabe twâriq “salteadores” ou em outra versão ligando a palavra tuaregues a “tawariq” significando abandonado por Deus), mostrando o desagrado dos árabes aos Imazighan os homens livres “os homens azuis” vindo do turbante azul e roupa que usam.
A família de minha mãe casava-se muito entre a família, primos com primos, e aparências jeitos e trejeitos se repetem em gerações. Caldeamentos, raças e origens. Conto ou falo à mim mesmo sobre o momento importante de minha vida, ver aos setenta anos o meu primeiro neto. O relacionamento entre meu filho e meu neto repete-se em atos, brincadeiras e amor. O que eu recebi e tentei transmitir.
Sem territórios e relações de comprometimentos com vassalagens. O vento direciona o meu destino, estive não estou, sem pesos nem culpas, viajo leve de bagagens, trazendo experiências e sonhos, criando relações novas construções e projetos.
Na descoberta de novos horizontes e desafios, encontrei no sábado de Aleluia, um fogo que incendeia, alastra-se e amplia.




No Fotroca, no Palacete Carmelitas encontro entre amantes de fotografia e fotógrafos. Compartilhamento de experiências, mundos e tribos.
Na exposição de seus trabalhos fotográficos, os autores dos livros contavam suas experiências de criação. A fotógrafa Carol Conti com seu trabalho “Saudades da Avó” trazia reminiscência de sua infância, fotos da casa, objetos, todo um sentimento de uma ausência presença de um companheirismo. Lembranças que não deixarei para meu neto, histórias que sei que não transmitirei pessoalmente, pois o tempo de partir é presente a cada instante. Necessidade de contar histórias, casos, mostrar origens e caminhos. Saudades de histórias, que tenho de deixar...

Daniela Lucheta com o “Cadê o menino” traz a mágica do momento de quem registra e do registrado, uma relação de cumplicidade que experimentamos a cada momento. Relações criadas ao primeiro clique, aprofundada sem palavras nos gestos. Relação fantástica, surreal. Exposto em dois trabalhos um com fotos, outro com ilustrações da Daniela e poesias haicai da Carol Conti, um trabalho de parceria e entendimentos.

Pedro Clash com “O menino” (Boy) imagens de nostalgias em climas frios de uma Inglaterra sem sol, a relação entre o homem e a criança seu afilhado. Entre a dureza de praias de seixos, ventos gélidos combatidos com pesadas roupas, uma banana tropical na mão da criança. Tocou-me forte, o pensamento de sair do país e as relações novas em outras terras. A casca vazia da banana, e as opções de liberdade da criança. Um filme em fotos, histórias sem fim...

Ricardo Biserra criador do evento, em sua 41ª. edição, traz sua marca de reinvenção constante. Criador de uma proposta alternativa, em constante ebulição apresentou o seu trabalho “Dust” (poeira) o registro da visão da periferia com seu espaço multicultural, uma área usada para jogos de futebol, circos e parques. O “campinho” das nossas memórias presente nos confins dessas megalópoles.

Rodrigo Pivas em “LINHASDACIDADE” mostra o encontro das linhas arquitetônicas de São Paulo, criando em imagens desfocadas, manchas, recortes da cidade transformada e recriada em sua imaginação. Voltei ao tempo em que descobria, edifícios, espaços e imaginava o futuro. 
Tantas histórias, experiências, compartilhamentos, calor humano torna-se pequeno o mero relato de um Imazighan. Saímos eu “amajagh” (homem) e a “tamajaq” (mulher) cumplices e parceiros, corações leves, pensamentos cheio de projetos e promessas. Roupas azuis carrego minhas crenças caminhando para Zambukaki.









Hugo Ferreira Zambukaki

Fotos Jô Muniz

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Documentário “Negro Lá, Negro Cá”

Documentário cearense sobre racismo é selecionado para festival de cinema em Portugal

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Andy Monroy, um dos entrevistados para o documentário. Foto: Divulgação

O documentário “Negro Lá, Negro Cá”, do jovem cineasta Eduardo Cunha, não foi só um Trabalho de Conclusão de Curso: Sergipe, Rio de Janeiro e até Portugal tiveram ou terão a exibição do filme em três festivais importantes do gênero. O trabalho traz reflexões do racismo sofrido por imigrantes africanos residentes em Fortaleza, no Ceará.

Em entrevista concedida para o portal da Rádio Verdes Mares, Eduardo conta que a ideia veio por meio de conversas com um amigo de Cabo Verde, Andy Monroy. “A gente sempre conversou sobre o racismo e outras questões referentes à adaptação dele e de outros estudantes aqui em Fortaleza”, explica.

O filme foi selecionado para três festivais até agora. O primeiro foi para o XV Encontros de Cinema de Viana do Castelo, em Portugal. O filme foi exibido em maio deste ano. Em seguida, foi selecionado para o 5º SERCINE – Festival Sergipe de Audiovisual e será exibido em outubro de 2015. O mais recente foi o Visões Periféricas, que acontece em agosto, no Rio de Janeiro. Além desses festivais, Eduardo pretende receber novas seleções de outros eventos de cinema nos quais inscreveu o documentário.

Confira o teaser de “Negro Lá, Negro Cá”:

Inicialmente, Eduardo, que é recém-formado em Publicidade e Propaganda pela Unifor, quis acompanhar o cotidiano de alguns imigrantes e fotografá-los, mas “por sugestão do meu professor Wilton Martins, que é fotógrafo e sociólogo, resolvi fazer um documentário. Tratar do racismo num produto audiovisual traria mais possibilidades de fazer as pessoas se questionarem sobre o assunto”, enfatiza.

No documentário, são entrevistados os africanos Andy Monroy (Cabo Verde), Alfa Umaro Bari (Guiné-Bissau), Cornelius Ezeokeke (Nigéria) e Manuel Casqueiro (Guiné-Bissau). “A história de vida de cada um é muito rica e isso se reflete na fala deles. O filme busca trazer inquietação em quem assiste e tenho percebido que o ‘Negro Lá, Negro Cá’ tem cumprido esse papel”, revela Eduardo, entusiasmado.

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O diretor Eduardo Cunha. Foto: Thaís Mesquita

Para ele, a repercussão do filme pode fazer com que as pessoas se aproximem do problema que é o racismo e do quanto isso pode ser agressivo. “Gosto de fazer a comparação do filme com uma cadeira, ou um objeto qualquer, em chamas. De longe, podemos nos dar conta de que aquele fogo pode ser prejudicial para nós, fisicamente. Algumas pessoas podem não perceber e precisar chegar mais perto para sentir o calor do fogo e, a partir daí, entender o risco que ele pode representar. Outras pessoas, mesmo estando perto, podem não se dar conta e só perceberem a agressividade do fogo quando se queimarem. Aí elas estarão tendo a experiência mais intensa possível”.

Eduardo Cunha faz parte do 202b, uma equipe cearense dedicada a desenvolver um trabalho que transita em linguagens como vídeo, fotografia, pintura e desenho.

Por: verdinha às 17:34 de 07/08/2015 – Verdes Mares

Documentário “Negro Lá, Negro Cá”

Documentário cearense sobre racismo é selecionado para festival de cinema em Portugal

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Andy Monroy, um dos entrevistados para o documentário. Foto: Divulgação

O documentário “Negro Lá, Negro Cá”, do jovem cineasta Eduardo Cunha, não foi só um Trabalho de Conclusão de Curso: Sergipe, Rio de Janeiro e até Portugal tiveram ou terão a exibição do filme em três festivais importantes do gênero. O trabalho traz reflexões do racismo sofrido por imigrantes africanos residentes em Fortaleza, no Ceará.

Em entrevista concedida para o portal da Rádio Verdes Mares, Eduardo conta que a ideia veio por meio de conversas com um amigo de Cabo Verde, Andy Monroy. “A gente sempre conversou sobre o racismo e outras questões referentes à adaptação dele e de outros estudantes aqui em Fortaleza”, explica.

O filme foi selecionado para três festivais até agora. O primeiro foi para o XV Encontros de Cinema de Viana do Castelo, em Portugal. O filme foi exibido em maio deste ano. Em seguida, foi selecionado para o 5º SERCINE – Festival Sergipe de Audiovisual e será exibido em outubro de 2015. O mais recente foi o Visões Periféricas, que acontece em agosto, no Rio de Janeiro. Além desses festivais, Eduardo pretende receber novas seleções de outros eventos de cinema nos quais inscreveu o documentário.

Confira o teaser de “Negro Lá, Negro Cá”:

Inicialmente, Eduardo, que é recém-formado em Publicidade e Propaganda pela Unifor, quis acompanhar o cotidiano de alguns imigrantes e fotografá-los, mas “por sugestão do meu professor Wilton Martins, que é fotógrafo e sociólogo, resolvi fazer um documentário. Tratar do racismo num produto audiovisual traria mais possibilidades de fazer as pessoas se questionarem sobre o assunto”, enfatiza.

No documentário, são entrevistados os africanos Andy Monroy (Cabo Verde), Alfa Umaro Bari (Guiné-Bissau), Cornelius Ezeokeke (Nigéria) e Manuel Casqueiro (Guiné-Bissau). “A história de vida de cada um é muito rica e isso se reflete na fala deles. O filme busca trazer inquietação em quem assiste e tenho percebido que o ‘Negro Lá, Negro Cá’ tem cumprido esse papel”, revela Eduardo, entusiasmado.

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O diretor Eduardo Cunha. Foto: Thaís Mesquita

Para ele, a repercussão do filme pode fazer com que as pessoas se aproximem do problema que é o racismo e do quanto isso pode ser agressivo. “Gosto de fazer a comparação do filme com uma cadeira, ou um objeto qualquer, em chamas. De longe, podemos nos dar conta de que aquele fogo pode ser prejudicial para nós, fisicamente. Algumas pessoas podem não perceber e precisar chegar mais perto para sentir o calor do fogo e, a partir daí, entender o risco que ele pode representar. Outras pessoas, mesmo estando perto, podem não se dar conta e só perceberem a agressividade do fogo quando se queimarem. Aí elas estarão tendo a experiência mais intensa possível”.

Eduardo Cunha faz parte do 202b, uma equipe cearense dedicada a desenvolver um trabalho que transita em linguagens como vídeo, fotografia, pintura e desenho.

Por: verdinha às 17:34 de 07/08/2015 – Verdes Mares

sábado, 5 de dezembro de 2015

Primeira vez que vi Marília Pera

Histórias do Teatro Casarão

Hoje logo dia 05 de dezembro de 2015, acordo com a televisão anunciando a morte da atriz Marilia Pera. Como uma velha escrivaninha de várias gavetas, que você encontra velhos papéis esquecidos, lembrei da primeira vez que vi Marília Pera.

Marilia Roda Viva 2

Marília Pera na peça Roda Viva de Chico Buarque, dirigida por Zé Celso, no coro fazia parte Zezé Motta – na sala Galpão do Teatro Ruth Escobar atacado pelo CCC em julho de 1968

Garoto vindo do interior, São Paulo era um mundo que enchia os olhos em 1968, para quem vinha de pequenas cidades. Cheguei em São Paulo nos fins de 1963, comecei a trabalhar no início de 1964, nas Lojas de Departamentos, logo estouraria a Revolução Militar em abril de 64.

Órfão de pais, vivia a grande luta de trabalhar e estudar à noite. Aos poucos fui me acostumando à cidade grande, tomando contato com a realidade. O que eu imaginava que seria uma abertura, viver numa cidade grande, tornava-se com a Ditadura Militar um cerco, uma corda que ia asfixiando cada vez mais, tudo e todos.

Em 1968 sofri uma crise na coluna cervical que me deu um afastamento do serviço. Foi quando conheci o Grupo Teatral Casarão misto amador com profissional, um centro cultural no Avenida Brigadeiro próximo à Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Com tempo ocioso, entre as sessões de terapias. Andava e vagava pelo Centro da cidade, o Teatro Casarão foi uma abertura que mudou minha vida.

Dentre o Grupo, um amigo foi o tutor desses novos caminhos. Waldemar Sillas um dos fundadores tornou-se companheiro e mentor. Na época além de ator, já era autor e diretor. Eu tinha uns vinte e poucos, erámos quase da mesma idade. Ele morava em Santana, lá nos lados onde minha irmã morava. Trocávamos confidências, sonhos, projetos, nossas namoradas eram amigas. Domingo sempre havia uma comida da sua mãe nos esperando. Erámos quase uma família...

Um dia creio que em agosto de 1968, Waldemar falou: - “Uns amigos estão precisando de ajuda, você pode ir comigo? ”. Minha resposta foi de imediato: - “Vamos! ”. Os atores da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, com direção de Zé Celso Martinez Corrêa, no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, haviam sido agredidos durante a peça.

Sala Galpão

Mais ou menos vinte homens encapuçados do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) haviam invadido e destruído a Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar no final da peça.

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Camarim da Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar (foto publicada na Folha de S.Paulo no dia 19 de julho de 1968)

Em 18 de julho de 1968, após mais uma noite de apresentação em São Paulo na sala O Galpão, cerca de vinte homens encapuzados, armados de cassetetes e soco inglês sob as luvas, do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), se dividiram para quebrar o cenário e partes do espaço físico, e invadir os camarins, espancando os atores e produção, rasgando roupas dos figurinos. Transformou-se numa resistência cultural contra a Ditadura.

Coro de Roda Viva Zezé 

Coro do Musical Roda Viva onde fazia parte Zezé Motta

  O musical Roda Viva causava polêmicas contava as péssimas condições sociais, políticas e financeiras da sociedade da época e do início das redes de televisão. Os personagens que representavam o povo, não possuíam quaisquer direitos de liberdade e são frágeis diante da influência da televisão.

 

Comprovada a evidente intenção de criticar a situação política, social e econômica da época, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) organizou uma agressão contra os artistas, sob alegação de que precisavam ser repreendidos pelos palavrões e por expor, ao público, os problemas do País.

A “proibição” de nos meios de comunicação vinham do “Ato Institucional número 5, que concedia poderes ao Presidente da República para intervir e cessar qualquer atividade ou liberdade democrática.

Hugo Waldemar 

Foto de fotógrafo das velhas máquinas lambe-lambe

Na época Waldemar Sillas e eu, barbudos e com cara de poucos amigos ficamos “escalados” na sala restaurada e como “seguranças” de proteção ao elenco. Uma proteção ficcional e simbólica.

Uma Marília tímida e maravilhosa e os atores vieram no final, agradecer nosso apoio e solidariedade à retomada da peça depois do ataque facista dos integrantes do CCC.

Histórias que no coração quebrado pelas partidas de amigas e amigos, ainda recordo. Épocas da Ditadura Militar, que a violência tentava calar nossos sonhos.

Hugo Ferreira Zambukaki

Fotos: Internet e arquivo pessoal